sexta-feira, 13 de setembro de 2013



Querida Margarida,

Estou perdido em meus pensamentos. Quando, finalmente, eles param em você, fico ainda mais confuso por querer e não poder parar. Me perdi em um romantismo, que não faz parte de mim.

Meu tênis está largado na sala, minha louça está suja e minha agenda repleta de afazeres. Minha barba cresceu e tenho me esquecido de rezar. Não tenho tido muito tempo. Meus pensamentos têm o capturado e a culpada é você.

Venho por meio desta, pedir-lhe que devolva minha vida. Quero meus pensamentos roubados de volta, minha capacidade de raciocinar e de ver o amor como estupidez. Por favor, devolva a minha vontade de cumprir com minhas obrigações, minha habilidade em ser um babaca e pague meus remédios para dormir.

Querida Margarida, peço-lhe minha vida social e a graça das minhas piadas. A tinta que gastei escrevendo pra você e meu tempo perdido, esperando que você notasse minha existência. E tenho certeza de tudo isso. Não se esqueça de colocar, entre as devoluções, uma agulha, linhas e uma droga cicatrizante. Ainda que você não entenda o motivo, será indispensável. 

Só que esta é a décima carta que te mando, pedindo para que me devolva o que retirou de mim. É que, mesmo não querendo, as outras nove foram parar na lixeira. Faltou coragem da minha parte. 

Querida Margarida, é por não me conhecer direito, que talvez você já tenha me devolvido tudo. Sua indiferença, ainda que inconsciente, me faz lembrar que você ainda não sabe que eu gosto de você. E isso dá raiva. Muita raiva. Tanta que, quando estou sozinho, quero que você me devolva tudo. Mas é quando te vejo passar, que em um suspiro de um bobo, te entrego todas elas de volta. 

Atenciosamente,
Anônimo.

(Adilson Júnior)

terça-feira, 3 de setembro de 2013


Dúvida de amor



E, de repente, gostei de você. Não sei se foi seu sorriso, seu jeito bobo de viver. Não sei se foi sua beleza ou a falta dela. Não sei se foi sua risada, em meio à multidão. Se foram suas músicas, sua voz ou seu perfume. Acho que nem conheço seu perfume. Ainda não sei se foi seu jeito de me olhar. Ou de me ignorar. Não sei se foi sua espontaneidade. Se foi sua inteligência. Não sei se foram suas fotos, o que as pessoas dizem de você. Se foi seu jeito sútil de me agradar. Se foi seu jeito de andar. Sei que gostei de você. Não sei se foi seu gosto parecido com o meu, seus amigos em comum, suas escolhas que se parecem com as minhas. Não sei se foi seu jeito de andar, de falar. E, não sei se foi sua maneira de virar o rosto. De me procurar em meio à multidão. Não sei se você me procura também. Não sei se foram seus erros que desconheço, sua história que me instiga a te conhecer. Não sei se foi minha imaginação, meu sonho, minha necessidade em te ver. Te rever, todos os dias. Nem sei se foi o acaso.Só sei que gostei de você. Não sei se foi nas minhas tentativas de me aprofundar sobre você. Não sei se foi o nome. O sobrenome. O tato. Ainda não sei. Se foi por seus escritos, por seus mistérios e sua ausência presente.Não sei se foi porque você sentiu o mesmo. Não sei se você me conhece. Eu te conheço. Sei da sua vida. Não sei se foi porque parei para procurar sobre ela. E, porque, fiz isso? Não sei se foi por curiosidade, ansiedade ou falta do que fazer. Não sei se foi bom te conhecer. Não sei se foi ruim também. Se foi estranho. Se é estranho. Ainda não sei porque gostei de você.Não sei se foi seu cabelo, seu jeito de dizer coisas que não são pra mim. E quando são? Ah, e quando forem! Não sei se foram outras vidas, se foi esta vida. Não sei. Não sei porque gostei de você. E porque estou gostando cada vez mais. Não sei se foi o acaso, se foi Deus, se foi a ciência. Não sei se foi a razão ou a iniciativa. Sabe-se lá o que foi. Não quero entender. Porque não saber de nada torna tudo mais divertido. Eu não sei. Mas, caso você saiba, venha me contar. Mas se não souber, embarque na minha dúvida. É o melhor de não saber de nada. Ou não. Não sei. Quem sabe não descobrimos juntos? Vai saber... da única coisa que tenho certeza, é de que gostei de você! (Adilson Júnior)


Suplício de vida 




   A pior sensação é a de impotência, diante de si mesmo. Querer demais algo e perceber que isto não basta. Ir atrás, mas sentir a fraqueza das pernas, no meio do caminho. Tentar dizer, mas a voz falhar em meio ao discurso. Tentar sorrir e parecer que a piada nunca fez sentindo, nem pra você mesmo. Tentar sair do chão, quando você ainda não percebeu a queda. 
   Saber o quanto se tem pra oferecer e não conseguir distribuir metade disso, por medo ou insegurança. Tentar vencer o nó da garganta e revelar os sentimentos ocultos por pensamentos, que não se concretizam na prática. Sentir que você mesmo fecha as portas, que a vida te abriu. 
  Descobre que não se enquadra em nenhum grupo, que ninguém te satisfaz, o suficiente. Mas descobre, também, que não consegue viver sozinho. Sente frio, sede, fome. Sem saber de onde, como e porque. Paralisa nas lembranças um passado que não é seu. Tem medo da realidade, porque vive em um mundo só seu. Sofre por não poder explicar o que sente. Sente o que não sabe se pode viver. Vive um dia, de cada vez, e esquece de tudo. Tudo que te faz feliz. Feliz. Feliz. Feliz. 
   É assim que se sente por dentro, mas não sabe transpor, sem parecer bobo. Prefere dizer o errado, a suportar o silêncio. Sente-se só, mesmo rodeado o tempo todo. Sente-se como se o mundo fosse, suficientemente, insuficiente. Escuta a música e não sabe mais se a letra é pra você. 
   Sente que a solidão nada mais é que o conforto para se sentir amado, rodeado. Encontra no silêncio, maior paz. Encontra no interior, menor vontade de cultivar o outro. Perde-se. Não sabe se escreve, se mente, se vive, se morre. Apenas não sabe. E não saber incomoda. Incomoda o coração, os pensamentos. Perturba. Perturba a alma. E agarra-se à fé, à descrença, ao novo do que não se viveu. Procura em outros tempos, viver o que perdeu vivendo o tempo de outro. Outro ser, outra vida, outra desilusão. Outra. Até se cansar. (Adilson Júnior)

quarta-feira, 28 de agosto de 2013


Como é surpreendente a intolerância humana. Julgar pelo simples fato de crer que a verdade que se defende, é a incontestável do mundo. Hoje, presenciei uma das cenas que contribuem para a minha revolta com a inabilidade das pessoas em aceitar o outro, como indivíduo. Sei que carrego comigo meus preconceitos, pré julgamentos e críticas pessoais, como qualquer outro. Mas tudo isto valida meus pensamentos como verdades? Com toda certeza, não. Com nosso livre arbítrio, temos a capacidade em aceitar situações ou não. Com nossa "liberdade" de expressão, temos o poder de decisão sobre o que devemos dizer ou não. Entretanto, quando as pessoas se enchem de discursos vazios, baseados em uma pseudo cultura, onde a distância do "quadradinho de oito" e o discurso "Abaixo, Rede Globo!", os fazem superiores, me entristece. Achar que cultura se resume a escutar Chico Buarque, assistir Globo News e discutir política. O que são excelentes atividades, mas vivemos em um mundo eclético, de muitas formas e crenças. Tem cultura, também, quem assiste Ratinho, gosta de funk e discute futebol. Creio que as pessoas deveriam se unir mais pelo bom humor, pela tolerância. O grande problema atual são os discursos. Talvez, este seja o problema da humanidade. Partidos se enchem de orgulho de seus princípios e não abrem mão para a discussão de falhas, as defensoras da religião se unem na briga por fiéis, as universidades estão "escancarando" as portas, oferecendo até computadores para o recrutamento de estudantes. Há propaganda política em todo lugar. E, política, se refere também a nós seres humanos. Sob a forma de reis do discurso, perdemos a capacidade de escutar. ESCUTAR, ESCUTAR. Porque é muito mais fácil ir para as ruas e reclamar, sob a face pintada e o discurso vazio do cartaz. Mas, o que fazemos no dia-a-dia? Como é que discutimos o que vemos de errado, até mesmo nas nossas relações? Apontamos nossos próprios erros? Nos preocupamos em conversar com o outro? A gente perde muito tempo, tentando ser líder, ser defensor, ser crítico. E, quer saber? Não estamos errados. Mas o bom humor, a forma de lidar, pacificamente, com as decisões alheias, a vontade de rir da vida, sem discursos... Essa, se perde na velocidade em que as pessoas enlouquecem, tentando entender o mundo. Devemos indagar, para mudar. Mas comecemos por nós mesmos. Não há nada mais ridículo e podre, que o julgamento alheio, sem olhar o próprio umbigo. Como um aspirante a comunicador social, fico triste em perceber a hipocrisia que surge com o ego exacerbado, com a política do "eu sei mais, que você!". Fico triste por também sofrer desse mal. Mas feliz em reconhecê-lo, em mim. Não falta inteligência ao mundo, falta bom humor. E, esse só se consegue com o tempo. Lembrando que, bom humor não se trata de sorrir o tempo todo. Mas em reconhecer seus limites, dar oportunidade ao outro e viver sob a forma do conhecimento mútuo e não do individual, que lhe coloca um ponto final em suas opiniões.Na luta do quem me representa e quem não, estamos sem representação própria. Sabe quem representa você? Você. Então, esse outro que julga quem decide, por livre e espontânea vontade, o outro de querer rir de si mesmo, segue a mensagem: enquanto você acha que mudar é só contestar o mundo e as atitudes alheias, eu acho que mudar é começar de si mesmo! Meu caro, esta é minha opinião. Fico grato em saber que é só mais uma entre tantas. Que jamais será a única e a correta. Esse é o exercício da tal liberdade em que vivemos. (Adilson Júnior)

segunda-feira, 26 de agosto de 2013


Quando o coração pede silêncio, é hora de se calar. Quando em um súbito momento de ansiedade, deixamos pra trás a capacidade de pensar e sentimos falta daquilo que nos é distante. Porque quando o distante foi próximo, o sentimento também já esteve presente. Se o coração pede silêncio, é hora de se calar. Quando a alegria é maior que a decepção, quando o amor é maior que o ódio, quando o desapego é menor que a esperança. Quando você se sente pronto. Derrama o café na roupa branca e sorri. Tropeça na frente da multidão e ri de si mesmo. Perde a batalha, mas luta pela guerra. Perde pro inimigo, mas não pra você. Quando descobre que uma situação é uma situação. Que um problema é uma oportunidade  de crescimento. E que a vida gira, loucamente, até encontrar seu eixo [e, talvez, nunca encontre] Quebram-se os grafites, somem as borrachas, acabam as aspas e coloca-se um ponto final, no ponto final. Escolhe-se a música e grita ao mundo que a vida te ama. Que você sempre será outro, pro outro. Mas ele também. Passar a entender que a vida é um ciclo vicioso, misterioso e intrigante, que te faz querer gritar, parar, chorar. Se o coração pedir silêncio, cale-se. Se pedir barulho, faça. Se pedir paz, encontre-a. Lute. Porque no final de tudo, quando o coração resolver não pedir mais nada, você estará em silêncio. No mais profundo dos silêncios. Que não te tira nada. Apenas, a oportunidade de contemplar a vida. E essa, ao contrário de tudo, é irrecuperável. (Adilson Júnior)

sexta-feira, 23 de agosto de 2013


Que sejamos capazes de repensar nossas atitudes, à medida em que reformulamos nossos pensamentos. Não há mudança, sem força de vontade. E, cá entre nós, não fomos feitos para a inércia. Esta acomoda o corpo e mofa os pensamentos. (Adilson Jr.)

quinta-feira, 22 de agosto de 2013


Expressar os sentimentos é algo tão complicado. Quem diz ter facilidade, nunca consegue descrever o que, de fato, está sentindo. Porque sentimento expressa um estado de espírito. Sentimento não é palpável. É neste ponto que a música surge. Não conheço algo que materialize, tão bem, nossos medos, amores e vivências. A música causa um estado de potência diante do mundo. Ela traduz as oscilações que não conseguimos entender. Nos faz chorar, sorrir, vibrar. É ela quem entrega o amor ao mundo. É nela que se encontram palavras desordeiras, que nos tiram da inércia do dia-a-dia. É, atráves dela, que conseguimos voltar ao passado, rir do presente e sonhar com o futuro. Afinal, quem nunca encontrou na música uma forma de sonhar com um novo amor? Ou de superar um velho amor? A música traz conforto. Supera o despero dos que não acreditam em, absolutamente, nada. Porque só a música é capaz de reviver a morte, reencontrar com os ausentes e superar o insuperável. Não há lei na música. Negar sua importância é como abrir mão da própria história. Não atenha-se aos preconceitos musicais, mas ao papel dessa arte. Assim como o silêncio, a música nos aproxima de Deus. Por diversas vezes, encontramos nela a possibilidade de dizer o que não conseguimos. Ainda que, em um momento solitário, você não encontre quem enxuge suas lágrimas ou contemple seus sorrisos, lembre-se da música. Tem sempre uma que diz, exatamente, o que você gostaria de escutar. Ou dizer.