terça-feira, 3 de setembro de 2013


Suplício de vida 




   A pior sensação é a de impotência, diante de si mesmo. Querer demais algo e perceber que isto não basta. Ir atrás, mas sentir a fraqueza das pernas, no meio do caminho. Tentar dizer, mas a voz falhar em meio ao discurso. Tentar sorrir e parecer que a piada nunca fez sentindo, nem pra você mesmo. Tentar sair do chão, quando você ainda não percebeu a queda. 
   Saber o quanto se tem pra oferecer e não conseguir distribuir metade disso, por medo ou insegurança. Tentar vencer o nó da garganta e revelar os sentimentos ocultos por pensamentos, que não se concretizam na prática. Sentir que você mesmo fecha as portas, que a vida te abriu. 
  Descobre que não se enquadra em nenhum grupo, que ninguém te satisfaz, o suficiente. Mas descobre, também, que não consegue viver sozinho. Sente frio, sede, fome. Sem saber de onde, como e porque. Paralisa nas lembranças um passado que não é seu. Tem medo da realidade, porque vive em um mundo só seu. Sofre por não poder explicar o que sente. Sente o que não sabe se pode viver. Vive um dia, de cada vez, e esquece de tudo. Tudo que te faz feliz. Feliz. Feliz. Feliz. 
   É assim que se sente por dentro, mas não sabe transpor, sem parecer bobo. Prefere dizer o errado, a suportar o silêncio. Sente-se só, mesmo rodeado o tempo todo. Sente-se como se o mundo fosse, suficientemente, insuficiente. Escuta a música e não sabe mais se a letra é pra você. 
   Sente que a solidão nada mais é que o conforto para se sentir amado, rodeado. Encontra no silêncio, maior paz. Encontra no interior, menor vontade de cultivar o outro. Perde-se. Não sabe se escreve, se mente, se vive, se morre. Apenas não sabe. E não saber incomoda. Incomoda o coração, os pensamentos. Perturba. Perturba a alma. E agarra-se à fé, à descrença, ao novo do que não se viveu. Procura em outros tempos, viver o que perdeu vivendo o tempo de outro. Outro ser, outra vida, outra desilusão. Outra. Até se cansar. (Adilson Júnior)

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