Querida Margarida,
Estou perdido em meus pensamentos. Quando, finalmente, eles param em você, fico ainda mais confuso por querer e não poder parar. Me perdi em um romantismo, que não faz parte de mim.
Meu tênis está largado na sala, minha louça está suja e minha agenda repleta de afazeres. Minha barba cresceu e tenho me esquecido de rezar. Não tenho tido muito tempo. Meus pensamentos têm o capturado e a culpada é você.
Venho por meio desta, pedir-lhe que devolva minha vida. Quero meus pensamentos roubados de volta, minha capacidade de raciocinar e de ver o amor como estupidez. Por favor, devolva a minha vontade de cumprir com minhas obrigações, minha habilidade em ser um babaca e pague meus remédios para dormir.
Querida Margarida, peço-lhe minha vida social e a graça das minhas piadas. A tinta que gastei escrevendo pra você e meu tempo perdido, esperando que você notasse minha existência. E tenho certeza de tudo isso. Não se esqueça de colocar, entre as devoluções, uma agulha, linhas e uma droga cicatrizante. Ainda que você não entenda o motivo, será indispensável.
Só que esta é a décima carta que te mando, pedindo para que me devolva o que retirou de mim. É que, mesmo não querendo, as outras nove foram parar na lixeira. Faltou coragem da minha parte.
Querida Margarida, é por não me conhecer direito, que talvez você já tenha me devolvido tudo. Sua indiferença, ainda que inconsciente, me faz lembrar que você ainda não sabe que eu gosto de você. E isso dá raiva. Muita raiva. Tanta que, quando estou sozinho, quero que você me devolva tudo. Mas é quando te vejo passar, que em um suspiro de um bobo, te entrego todas elas de volta.
Anônimo.
(Adilson Júnior)


